O prêmio pesou mais que o peixe
Uma única carpa-cabeçuda rendeu quatro premiações oficiais. Cada uma veio com um troféu e uma medalha para cada pescador da dupla.
Peso do peixe na balança oficial da competição, em 10 de novembro de 2019. Peso dos troféus e medalhas dos dois pescadores, somados.
Do riso ao recorde
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2 de dezembro de 2017
A vara rosa
Na primeira edição do Campeonato Brasileiro em Pesqueiros, Juan competia em dupla com a esposa, Débora. Faltavam poucos minutos para a prova quando a vara dele quebrou. A única reserva era a dela: pequena, delicada, cor-de-rosa, com molinete rosa. Não havia outra saída.
Imagine a cena: um campeonato brasileiro, câmeras de TV, transmissão ao vivo para o país inteiro, e um adulto entrando no lago com um kit cor-de-rosa brilhando no sol. Os competidores olharam. O público olhou. Até a narração entrou na brincadeira. Antes da primeira fisgada, já tinha riso em volta.
Trechos da transmissão ao vivo da Fish TV, CBP 2017. Imagens: Fish TV.
Juan pescou o dia inteiro com aquela vara. O casal voltou para casa com uma única tilápia, entre os últimos colocados.
Doeu. Mas foi ali que a piada virou combustível: estudar o peixe, o clima, a leitura da água, e voltar na edição seguinte para virar a história.
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Na edição seguinte, 10 de novembro de 2019
A virada
A boia baixou uma vez. O dia inteiro, uma vez só.
Era o Campeonato Gaúcho em Pesqueiros, em Montenegro, e chovia. Ventava, fazia frio, a pressão atmosférica tinha despencado. Sessenta duplas se espalhavam pelas margens do lago, e quase todas passavam as horas do mesmo jeito: olhando para uma boia parada.
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No meio da prova
O maior peixe da vida
Até então, o maior peixe da vida de Juan pesava cinco quilos. O que estava na ponta da linha tinha mais de três vezes isso. A vara envergou até quase tocar a água, e o molinete, leve demais para aquele peso, cedia linha sem parar.
“Na hora eu entrei em pânico e quis puxar”, conta Juan. “Aí veio a reflexão: calma, tu já ensaiou isso. Segue o que tu treinou.”
O treino tinha sido mental. Nas semanas anteriores, sem fisgar nada nos treinos de verdade, ele repassou a cena na cabeça dezenas de vezes, inclusive o detalhe que decidiria tudo: a boca da carpa-cabeçuda é frágil, e puxar com o peixe na superfície rasga o lábio e devolve o animal ao lago. Ele afrouxou o freio e foi trazendo o peixe devagar.
O Eduardo chegou com o passaguá, e o peixe não coube. Teve de ser puxado para dentro da rede pela cabeça. Na balança oficial, diante dos juízes: 17,760 kg. Foi o único peixe da dupla no dia inteiro.
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Antes do pódio
Troféu atrás de troféu
“A gente achava que ia ganhar dois troféus, um de 1º lugar e outro de maior peixe”, conta Juan. “O do maior peixe, que era o que eu queria, quando fomos ver, era menor (risos). O de primeiro lugar era o grandão. Então eu ia ficar com o pequeno e...”
Mas isso durou pouco.
“Aí começou a entrega. Troféu para mim, troféu para ele. Medalha, medalha. E aí veio mais. E mais.”
Um único peixe decidiu:
- 1º lugar da Etapa 2
- Maior peixe da Etapa 2
- Maior peixe do Campeonato Gaúcho
- Vice-campeonato gaúcho
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24 de setembro de 2026
Recorde brasileiro
O campeonato acabou, os troféus foram para a estante, e boa parte do registro digital daquela edição se perdeu na internet com o tempo. A história só sobreviveu porque os dois amigos, sem combinar, guardaram pedaços dela: um arquivou páginas e classificações, o outro deixou a TV gravando a transmissão.
Quase sete anos depois, com esse arquivo, o RankBrasil, o Livro dos Recordes Brasileiros, analisou a transmissão, os placares, a pesagem e as premiações, e homologou o feito. Segundo a própria entidade, é o primeiro recorde da sua história nascido dentro de uma competição de pesqueiro.
“Dizem que pescaria é questão de sorte. Isso depende. Porque se tu não estiver preparado, tu não vai ter sorte.”
Juan Arias
Quatro premiações, uma captura
Na pesca em pesqueiros, o resultado costuma ser a soma de vários peixes ao longo do dia. Aqui, tudo veio de um só.
- 1º lugar da Etapa 2Troféu e medalha para cada pescador
- Maior peixe da Etapa 2Troféu e medalha para cada pescador
- Maior peixe do Campeonato GaúchoSomadas as duas etapas
- Vice-campeonato gaúchoCom vaga na final nacional
Placar oficial da Etapa 2
| 1º | Juan Arias e Negão | 17,760 kg |
| 2º | Segunda dupla colocada | 13,280 kg |
| 3º | Terceira dupla colocada | 12,980 kg |
Das 120 duplas que disputaram o Campeonato Gaúcho, 119 terminaram atrás de um único peixe.
Homologado pelo RankBrasil
Desde 1999, o RankBrasil reconhece recordes brasileiros a partir de análise técnica da documentação de cada feito. Este é o título gravado na placa:
Dupla com Mais Premiações por uma Única Captura em Pesca Esportiva
Ver a publicação oficial do RankBrasilEsse recorde tem muitas mãos
Ao RankBrasil, pelo reconhecimento oficial. Ao Campeonato Brasileiro em Pesqueiros, onde tudo aconteceu, e à Fish TV, que transmitiu e registrou aquele dia e tornou a homologação possível. Ao Campeões da Pesca, o primeiro a sentar com a gente e ouvir essa história com calma. E à Débora, dona da vara rosa.
“O insucesso só depende da tua desistência. Então, não desistam. Se esse recorde motivar outras pessoas a pescar e a bater outros recordes, tudo isso já valeu a pena.”
Juan Arias, no Campeões da Pesca
A dupla 082
Juan Arias e Eduardo Severo Moraes, o Negão, são parceiros de pesca. Nenhum dos dois tinha subido num pódio antes daquele domingo.
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